quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Uma história envolvendo uma professora

Lá por 1994, mais ou menos, depois que o meu pai comprou o nosso primeiro computador, ele contratou uma faxineira, que, logo de cara, se mostrou muito eficiente no serviço.

Educada, de boa apresentação, ela trabalhava rápido e não era de muita conversa.

Certa vez, essa boa mulher perguntou ao meu pai:

- Seu Georges, esses disquetes que estão perto da torre do computador, eu tiro pó deles ou deixo aí como eles estão?

Essa pergunta deixou meu pai cismado. Como uma simples doméstica conhecia esses termos? “Bom, ela deve ter ouvido essas palavras na TV ou trabalhou em uma casa onde havia computador”, pensou ele.

Mas teve um dia que a curiosidade falou mais alto e o meu pai perguntou à faxineira:

- Você falou, outro dia, em disquetes, torre do computador… você já trabalhou em algum lugar que tivesse computador? – essa pergunta era válida, pois em 1994, na minha rua, só o meu pai e o vizinho tinham computador, e mais uma meia dúzia de gatos pingados, pois um micro custava caro, bem mais caro do que é hoje.

A faxineira disse:

- Na escola onde eu trabalhava tinha um micro…

Meu pai deu um suspiro e disse:

- Ah, bom… Mas você fala e se porta muito bem… – meu pai se interrompeu.

A faxineira disse:

- É que eu sou professora… professora formada, seu Georges!

Meu pai arregalou os olhos e disse:

- Professora??? E o que está fazendo como faxineira?

E ela, com muita simplicidade, disse:

- É que assim eu ganho mais e não sou obrigada a passar o que eu passava em sala de aula. Aqui eu chego, faço o meu serviço, o senhor me paga, eu vou embora e pronto… Na escola, eu era obrigada a aguentar cada coisa…

Quando meu pai me contou a conversa que havia tido com a faxineira, fiquei estarrecido. Ela era uma professora formada e prefiria trabalhar como diarista pois ganhava mais. Isso é uma vergonha para um país que se preocupa com carnaval e futebol e deixa de lado as prioridades. Jogador de futebol ganha fortunas e professores, policiais, bombeiros etc não são reconhecidos. Para carnaval e shows são destinados milhões; para a educação, migalhas…

Acorda, Brasil! Acorda, povo!

4 comentários:

J S Pereira disse...

É isso mesmo André.

Em nossa cultura consumista, educação e cultura não são produtos atraentes. Nem dá pra ostentar na frente dos amigos. Muito pelo contrário: você vira O CHATO.

Cultura é incômoda. Dá insônia. Mas não daquelas que você acha que poderá resolver com um analgésico. Sem chance. É aquela insônia que tem motivo claro. Que você sente pesar no corpo, na alma até.

Então, melhor se enturmar. Vestir a camisa de um clube de futebol, cantar o hino nacional em eventos esportivos - e pouco se lixar se o país e o mundo mergulha numa crise de identidade social sem precedentes.

Ótima história. Quer dizer, péssima. Essas histórias deveriam ser Contos de Terror. Ou surreais. Nunca, reais.

Abraços

Bronca no Trombone disse...

Amigo, eu fiquei estarrecido quando o meu pai me contou isso. Eu, no início, reparei que aquela mulher era muito "fina" para ser apenas uma diarista. Falava bem, articulava com perfeição as palavras e tinha muitos conhecimentos. Era uma professora. Meu Deus, que país é este?

Obrigado pelo comentário!

Abraços,

André

Rafhaelbass disse...

Eh, verdades que nos deixam tristes com a vida....

Bronca no Trombone disse...

Hoje não é raro ver pessoas formadas atuando como camelôs, frentistas de postos de gasolina e por aí vai...
Mas triste mesmo é a realidade do professor de uns anos para cá. Isso precisa mudar!

Obrigado pelo comentário, amigo!

Abraços,

André